sexta-feira, 22 de maio de 2009

Meu eu que escreve

Às vezes, quando a gente está muito, muito aflito e não consegue verbalizar o que sente, acho que palavrear no papel é a melhor saída. Já fiz muito disso na vida.

Uma desilusão amorosa, um projeto que não deu certo, uma magoazinha aqui ou uma inspiraçãozinha ali, tudo era motivo pra eu sair escrevendo.

Agora tenho usado mais o verbo falado mesmo, parece que quanto mais o tempo passa, mais descarado a gente vai ficando. O fim deve ser mesmo virar um "velho sem-vergonha". Tô nesse caminho...

Mas enquanto a vergonha e o medo da rejeição ainda me assolavam, eu escrevia coisas como essa carta aí embaixo, uma das muitas que fazem parte da minha coleção de não-enviadas. Túnel do tempo retroagindo 4 anos:



"Sempre achei que os cavalheiros fossem fortes e corajosos. Como uma vez uma sábia princesinha tinha me dito que eram todos os homens.
Porém as experiências que vivemos demonstram que as vezes as fortalezas não são humanas, podem vir a ser criadas por um homem para proteger-se fisicamente, mas a virtude de ser forte emocionalmente não os acompanha.
Nunca esperei que um cavalheiro recuasse diante de uma batalha. Que tivesse a capacidade de fazer meia volta com o cavalo, guardar lança e armadura e preferir os braços de uma cortesã a enfrentar as agruras e desafios inerentes a sua condição de homem da cavalaria.
Jamais, em meu pensamento romântico, aquele criado em torno dos bravos homens que salvam nações inteiras em filmes épicos, podia acreditar que alguém que nasceu para servir e fazer o bem pudesse amedrontar-se diante de um sentimento.
Não achei que a força e a coragem pudessem ruir ao encontrar um sentimento puro como aquele que fez o tal cavalheiro desistir de ir ao encontro da sua princesa.
É, o cavalheiro, que nas histórias sempre suspira por uma mulher e dedica à ela as suas conquistas e vitórias, desta vez preferiu esconder-se no seu mundo de pensamentos pouco conclusivos a reconhecer que tinha encontrado a Dulcíneia da sua vida.
Abriu mão de viver o romance, de enfrentar o que o mundo colocara a sua espera, para viver uma vida insossa, de conquistas fáceis e trabalho árduo. Mal ele sabe que a sina dele não é essa. Deviam ele e a princesa estar construindo juntos o seu castelo, levantando ao pouco as muralhas que protegeriam os seus sentimentos. Deveria ele estar com armas em punho para lutar por algo maior, por aquilo que todos procuram incessantemente em suas vidas: a felicidade.
Quem sabe o cavalheiro tenha acreditado que a vitória ao lado dessa princesa não seria tão emocionante como as contadas nos livros que havia lido. E a vitória certa, de uma felicidade que ele sabe que seria facilitada por ela, talvez tenha motivado o cavalheiro a ir atrás de algumas cortesãs, na esperança de que a transformação delas no que já era a princesa, pudesse trazer-lhe mais prazer do que estar ao lado daquela mulher que já tinha as virtudes que por ele realmente eram admiradas. Talvez essa segurança que a princesa transparecia, fosse agressiva demais para a falta de certeza das coisas da vida que acompanhava o cavalheiro.
Mas, pobre coitado, mal sabia ele que em todos aqueles livros que lera, o superlativo era quem dava emoção as histórias. Os cavalheiros que se embrenhavam em mundos desconhecidos e enfrentavam monstros e feras aterrorizantes, na verdade acordavam cedo, iam para o campo, voltavam para a casa, tinham um tempo feliz com seus filhos e esposa e dormiam felizes, por que sabiam que aquela era a maior felicidade de um cavalheiro, a segurança de um lar, de um trabalho que gerava bons frutos, do amor da sua família.
Os monstros, aqueles que habitam o nosso interior, eram vencidos com as armas mais justas de serem usadas nessas batalhas: maturidade e paciência. Era assim que esses guerreiros venciam o que lhes vinha pela frente. Eles não recuavam, não saiam a galope marchando em direção contrária ao que tinham que enfrentar. Esses cavalheiros enfrentavam de peito aberto os problemas corriqueiros da vida e se aconchegavam no colo de suas princesas, sempre dispostas a incentivá-los a continuar a trilhar o seu destino.
Na hora de contar essas histórias, os cavalheiros se davam ao luxo de transformar uma insegurança em um dragão de sete cabeças, para então entreter os amigos em volta da fogueira com histórias que pudessem lhe fazer bem ao ego.
E as princesas também se divertiam com aquelas histórias, que sempre dedicadas à elas, mostravam que as conquistas corriqueiras dos cavaleiros traziam a felicidade e a satisfação que é simples de ser encontrada...
Confesso que fiquei muito decepcionada quando soube que o meu cavaleiro teve medo, fugiu, recuou, escondeu-se, receoso em enfrentar tudo o que a história ainda reservava a ele.
Eu, que nem tinha a pretensão de ser a princesa que ia motivar todas as suas conquistas, surpreendi-me quando soube que podia ser o que ele chama de “mulher da vida” dele. Mas tal título não me fez sentir melhor, já que o que eu queria era na verdade poder estar feliz e fazendo com que ele fosse feliz ao meu lado.
Pena que lhe faltou a coragem e a força, de enfrentar o medo, de batalhar contra os seus monstros internos, de lutar contra a comodidade da solidão. E eu, que me sinto pronta para enfrentar as minhas batalhas, tive que bater em retirada, deixar o campo, vendo os moinhos de vento ao longe, a demonstrar que como o vento, o tempo está a passar e mudar as coisas."

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Palavreando o eu



Como o mundo não pára* para ouvir a gente, mas a gente tá sempre ouvindo o mundo pela boca dos outros, resolvi começar a escrever sobre mim, ou talvez sobre alguém, ou sobre vocês.

O que quero é falar de gente, das coisas que só o nosso eu conversa, daqueles pensamentos que querem sair da nossa cabeça mas a boca teima em segurar. Por conveniência, medo, pudor. A gente tá sempre lá, segurando o nosso eu, que tá doido de vontade de gritar.

E não adianta você dizer que não é assim, que é sincero aos seus sentimentos e fala tudo o que pensa. Essa história pra mim não cola. É desculpa de gente mal educada que quer se justificar antes mesmo de falar alguma coisa que magoe alguém, mas que, na verdade, guarda um monte de coisa dentro de si, porque, com o eu dele, essa pessoa não conversa.

Fala o que vem na veneta, sem medo de machucar, mas morrendo de medo de ser machucado, sabe? Dúvido que saia por aí como uma radiola quebrada botando pra tocar o que a cabeça manda. Quem faz isso tem medo de se escutar antes de falar, por isso se justifica dizendo que não tem "papas na língua". Mas que guarda umas coisas só pra si, ah, isso eu tenho certeza de que guarda. Senão já estaria preso, isolado, embaixo da terra, dúvido que no céu.

Meu povo, a gente nasceu foi com a língua empapada! Não tem jeito de falar tudo o que a cabeça pensa. Aliás, a educação jamais permitiria isso.

Mas aqui vai ser lugar para palavrear o que o meu eu quiser, com pudor ou não, com medo de julgamento ou não, de forma educada ou cheia de má-educação.

O négocio desse negócio vai ser mesmo deixar a palavra vir.

Depois a gente apaga, comenta, retifica, ratifica, faz o que quiser.

Vai ser o blog do meu eu e ele que decida o que fazer.

*É bom desde o começo todo mundo saber que o meu eu foi alfabetizado lá pelos meados dos anos 80. Sem regras novas.