
Porém as experiências que vivemos demonstram que as vezes as fortalezas não são humanas, podem vir a ser criadas por um homem para proteger-se fisicamente, mas a virtude de ser forte emocionalmente não os acompanha.
Nunca esperei que um cavalheiro recuasse diante de uma batalha. Que tivesse a capacidade de fazer meia volta com o cavalo, guardar lança e armadura e preferir os braços de uma cortesã a enfrentar as agruras e desafios inerentes a sua condição de homem da cavalaria.
Jamais, em meu pensamento romântico, aquele criado em torno dos bravos homens que salvam nações inteiras em filmes épicos, podia acreditar que alguém que nasceu para servir e fazer o bem pudesse amedrontar-se diante de um sentimento.
Não achei que a força e a coragem pudessem ruir ao encontrar um sentimento puro como aquele que fez o tal cavalheiro desistir de ir ao encontro da sua princesa.
É, o cavalheiro, que nas histórias sempre suspira por uma mulher e dedica à ela as suas conquistas e vitórias, desta vez preferiu esconder-se no seu mundo de pensamentos pouco conclusivos a reconhecer que tinha encontrado a Dulcíneia da sua vida.
Abriu mão de viver o romance, de enfrentar o que o mundo colocara a sua espera, para viver uma vida insossa, de conquistas fáceis e trabalho árduo. Mal ele sabe que a sina dele não é essa. Deviam ele e a princesa estar construindo juntos o seu castelo, levantando ao pouco as muralhas que protegeriam os seus sentimentos. Deveria ele estar com armas em punho para lutar por algo maior, por aquilo que todos procuram incessantemente em suas vidas: a felicidade.
Quem sabe o cavalheiro tenha acreditado que a vitória ao lado dessa princesa não seria tão emocionante como as contadas nos livros que havia lido. E a vitória certa, de uma felicidade que ele sabe que seria facilitada por ela, talvez tenha motivado o cavalheiro a ir atrás de algumas cortesãs, na esperança de que a transformação delas no que já era a princesa, pudesse trazer-lhe mais prazer do que estar ao lado daquela mulher que já tinha as virtudes que por ele realmente eram admiradas. Talvez essa segurança que a princesa transparecia, fosse agressiva demais para a falta de certeza das coisas da vida que acompanhava o cavalheiro.
Mas, pobre coitado, mal sabia ele que em todos aqueles livros que lera, o superlativo era quem dava emoção as histórias. Os cavalheiros que se embrenhavam em mundos desconhecidos e enfrentavam monstros e feras aterrorizantes, na verdade acordavam cedo, iam para o campo, voltavam para a casa, tinham um tempo feliz com seus filhos e esposa e dormiam felizes, por que sabiam que aquela era a maior felicidade de um cavalheiro, a segurança de um lar, de um trabalho que gerava bons frutos, do amor da sua família.
Os monstros, aqueles que habitam o nosso interior, eram vencidos com as armas mais justas de serem usadas nessas batalhas: maturidade e paciência. Era assim que esses guerreiros venciam o que lhes vinha pela frente. Eles não recuavam, não saiam a galope marchando em direção contrária ao que tinham que enfrentar. Esses cavalheiros enfrentavam de peito aberto os problemas corriqueiros da vida e se aconchegavam no colo de suas princesas, sempre dispostas a incentivá-los a continuar a trilhar o seu destino.
Na hora de contar essas histórias, os cavalheiros se davam ao luxo de transformar uma insegurança em um dragão de sete cabeças, para então entreter os amigos em volta da fogueira com histórias que pudessem lhe fazer bem ao ego.
E as princesas também se divertiam com aquelas histórias, que sempre dedicadas à elas, mostravam que as conquistas corriqueiras dos cavaleiros traziam a felicidade e a satisfação que é simples de ser encontrada...
Confesso que fiquei muito decepcionada quando soube que o meu cavaleiro teve medo, fugiu, recuou, escondeu-se, receoso em enfrentar tudo o que a história ainda reservava a ele.
Eu, que nem tinha a pretensão de ser a princesa que ia motivar todas as suas conquistas, surpreendi-me quando soube que podia ser o que ele chama de “mulher da vida” dele. Mas tal título não me fez sentir melhor, já que o que eu queria era na verdade poder estar feliz e fazendo com que ele fosse feliz ao meu lado.
Pena que lhe faltou a coragem e a força, de enfrentar o medo, de batalhar contra os seus monstros internos, de lutar contra a comodidade da solidão. E eu, que me sinto pronta para enfrentar as minhas batalhas, tive que bater em retirada, deixar o campo, vendo os moinhos de vento ao longe, a demonstrar que como o vento, o tempo está a passar e mudar as coisas."

